sexta-feira, 7 de junho de 2013

Felicidade da menina


Durante minha infância não tive muito contato com livros. Eram poucos. Esparsos. Tive sempre ao lado a figura de minha mãe, cantando e contando histórias... E nas primeiras aulas de criar-se menina, a valorização da escola, do estudo, do livro, enfim do conhecimento como parte indelével do ser.
Já na escola, as idas à biblioteca tornaram-se mais frequentes e ficar horas por entre as estantes olhando os livros, todos organizados, sempre me encantou. Ficar "flertando" com eles, folheando, alisando a capa, sentindo o cheiro... Era o princípio de uma história longa para se decifrar.
Sentia uma sensação gostosa ao ver as pessoas saindo da biblioteca com seus livros em baixo do braço. Era como estar protegida com um escudo poder andar pelas ruas, até chegar em casa, com um livro em meu poder. E minha vida como leitora começou assim. Horas e horas seguidas, tardes e tardes a fio passava sorvendo as histórias, saboreando as palavras. 
A memória da janela do quarto, com a vista para o céu, os desenhos que as nuvens formavam, se transformavam nas histórias que eu, menina, podia contar...
Um dia, numa tarde dessas, encontrei-me com Clarice. Era uma escritora e tanto. Falavam muito bem dela e da importância da sua obra para a literatura... Foi assim que a Felicidade Clandestina me tomou pelas mãos e pude, então, me ver representada por uma personagem no papel. A posse do volume, o livro nas mãos, traduzia um indecifrável sentimento. Eu era a própria menina do conto...
"Era um livro grosso, meu Deus, era um livro pra se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam."

(LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1998).

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