Durante minha infância não tive muito contato com livros. Eram
poucos. Esparsos. Tive sempre ao lado a figura de minha mãe, cantando e
contando histórias... E nas primeiras aulas de criar-se menina, a valorização
da escola, do estudo, do livro, enfim do conhecimento como parte indelével do
ser.
Já na escola, as idas à biblioteca tornaram-se mais frequentes e ficar
horas por entre as estantes olhando os livros, todos organizados, sempre me
encantou. Ficar "flertando" com eles, folheando, alisando a capa,
sentindo o cheiro... Era o princípio de uma história longa para se decifrar.
Sentia uma sensação gostosa ao ver as pessoas saindo da biblioteca
com seus livros em baixo do braço. Era como estar protegida com um escudo poder
andar pelas ruas, até chegar em casa, com um livro em meu poder. E minha vida
como leitora começou assim. Horas e horas seguidas, tardes e tardes a fio
passava sorvendo as histórias, saboreando as palavras.
A memória da janela do quarto, com a vista para o céu, os desenhos
que as nuvens formavam, se transformavam nas histórias que eu, menina, podia
contar...
Um dia, numa tarde dessas, encontrei-me com Clarice. Era uma
escritora e tanto. Falavam muito bem dela e da importância da sua obra para a
literatura... Foi assim que a Felicidade Clandestina me tomou pelas mãos e
pude, então, me ver representada por uma personagem no papel. A posse do
volume, o livro nas mãos, traduzia um indecifrável sentimento. Eu era a própria
menina do conto...
"Era
um livro grosso, meu Deus, era um livro pra se ficar vivendo com ele,
comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu
passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia
seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu
nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam."
(LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. In: Felicidade
Clandestina. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1998).
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